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Journal of Clinical Sleep Medicine, Vol . 1 N°4, 2005

Driving While Sleepy Should Be A Criminal Offense, by Ilene Rosen

 

Dirigir Sonolento Deveria Ser Considerado Crime

 

Na seção de debates desse periódico a médica autora ressalta que dirigir sobre privação de sono deveria ser considerado um delito doloso. A privação de sono leva a prejuízos como o álcool e as drogas. Indivíduos com privação aguda ou crônica parcial de sono manifestam déficits de funções neurocognitivas e da atenção. Além disso, há indícios de um aumento no número de acidentes de veículos causados por motoristas privados de sono. Enquanto que catástrofes históricas foram associadas a transtornos do sono como as das usinas nucleares de Chernobyl e Three Mile Island, o vazamento de óleo de Exxon Valdez e o acidente com a espaçonave Challenger, ainda é mais alarmante o fato de que 1% dos motoristas americanos admita ter se envolvido em acidentes por causa de sonolência.

Definição de Privação de Sono

Os estados de sono e vigília são regulados pela atividade cerebral e comportamental, governados por um balanço homeostático e influenciados por fatores circadianos e interação de estímulos internos e externos. A atividade continuamente declina após 16 horas de vigília contínua a despeito da duração do sono noturno. Quando adultos saudáveis dormem menos que 5 horas de sono, o fator homeostático eleva-se exponencialmente, evidenciando uma forte propensão ao sono, e o desempenho cognitivo reduz-se exponencialmente. Privação de sono pode ser aguda total quando o indivíduo passa uma noite sem dormir. Privação parcial cumulativa de sono pode ser mais problemática por ser mais difícil de identificar. Os indivíduos podem apresentar os efeitos neurocognitivos de privação parcial de sono crônica quando obtém menos de 6 horas de sono por noite por mais de uma semana. Estudos recentes demonstram prejuízos em indivíduos mesmo que expostos a modestos graus de privação de sono.

 

Consequências da Privação de Sono

Enquanto estudos investigam o impacto da relação entre desempenho e privação de sono, algumas consequências são comumente estabelecidas à privação aguda e crônica de sono. Privação de sono está associada a significativas mudanças nas funções cognitivas. Há déficit na associação, consolidação e memória de curta duração. O desempenho em tarefas que recorram à atenção dividida está prejudicado sensivelmente, como se o indivíduo sofre-se de TDHA (transtorno do déficit de hiperatividade e atenção). Os indivíduos demonstram incapacidade em manter o alerta requerido para executar as tarefas que exijam atenção e concentração. As habilidades motoras também estão significativamente piores nos privados de sono, comparando-se com os não privados de sono. Esses achados foram bem demonstrados em estudos com simuladores de direção. Portanto, um aumento nos acidentes de percurso e rodoviários foi observado em indivíduos privados de sono. Somando-se aos déficits de desempenho, ainda estão superpostos o mau humor, irritabilidade e a queda de energia relacionada à privação de sono.

 

Os Riscos de Dirigir Sonolento

Até os céticos, que possam desacreditar nos dados de estudos sobre privação de sono feita sob controle em laboratório, aplicados para condições reais, não podem ignorar as estatísticas relacionando privação de sono e acidente de veículos. Num recente estudo retrospectivo com motoristas envolvidos em acidentes mostrou que indivíduos com menos de 7 horas de sono tinham duas vezes mais risco de estarem envolvidos nos acidentes. Este risco aumentava exponencialmente a cada hora a mais de privação de sono. O Instituto Americano de Tráfico estima que 100.000 acidentes por anos estejam relacionados à privação de sono. Esses acidentes levam a 71.000 feridos e 1500 mortes por ano. Custam ainda bilhões de dólares em danos a propriedade, prejuízos, lesões corporais, perda de produtividade. Ainda assim especialistas em tráfico e em medicina do sono ainda acreditam que é subestimado o fator privação de sono no que se refere às estatísticas de acidentes de veículos. Isso se deve a vários fatores, porém atentem para o fato de que muitos dos casos desses acidentes com indivíduos dormiram ao volante não serem relatados à polícia. Outras vezes não é detectada a causa pelo fato do policial não ser treinado para avaliar sonolência ao volante. Em outros países como Inglaterra, França e Finlândia estima-se que 10-20% dos acidentes ocorram por sonolência ao volante. Na Austrália eles estimam 6% dos acidentes relacionados à fadiga.

O foco do problema é mais dramático quando consideramos acidentes relacionados ao sono em motoristas profissionais e profissionais de saúde, que tradicionalmente tem turnos prolongados de trabalho. Em 1990 o Conselho de Segurança de Trânsito Americano relacionou um terço dos acidentes de caminhões com fadiga. Pesquisas apontam uma prevalência de acidentes em residentes privados de sono, principalmente em períodos pós-plantão. Um estudo recente mostrou que internos que estiveram em plantão de 24 horas apresentavam risco em dobro comparando-se com os que não estavam nesse regime de trabalho.

 

Privação de Sono Causando Prejuízo

O termo prejuízo aqui se aplica como a incapacidade de atuar como consequência de uma inabilidade física ou mental. É amplamente aceito o fato de o consumo de álcool e drogas ilícitas prejudicar a habilidade de dirigir veículos com segurança e aumenta exponencialmente os riscos de matar ou ferir seriamente a si mesmo e a terceiros. Enquanto que explicitamente não haja intenção de lesar terceiros, dirigir sob uso de álcool ou substâncias constitui dolo, e há leis em vários estados Americanos punindo criminalmente os infratores como homicidas. Sob concentrações séricas alcoólicas de 0,07% ou mais afetam o julgamento, cautela, memória e habilidade de raciocínio. Nesses níveis os indivíduos estão inabilitados a dirigirem de forma segura. Similarmente, indivíduos privados de sono subestimam o grau de prejuízo imposto pelo débito de sono. Além do mais os sinais de alerta de um ataque de sono podem não ser evidentes. Estudos com motoristas de caminhão privados de sono demonstram que os mesmos podem apresentar cochilos sem estarem conscientes do ocorrido. Motoristas sonolentos, como motoristas embriagados, apresentam retardo na reação, prejuízo no julgamento e déficit de atenção. Estudos demonstram que privação de 24 horas de sono equivale a concentração sanguínea de 0,10% de álcool. Baseando-se nesses achados, a privação de uma noite de sono então, seria mais prejudicial do que os níveis alcoólicos considerados inaceitáveis.

 

Dirigir Sonolento uma Lei Existente

Nos EUA em 1997 uma jovem estudante Maggie McDonnell morreu em uma colisão frontal entre seu veículo contra o veículo conduzido por um motorista privado por 30 horas de sono, que inicialmente foi absolvido. Sua mãe recorreu e em 2003 ela conseguiu que fosse sancionada uma lei punindo como criminoso uma pessoa que dirigisse nesse estado de fadiga.

Em setembro de 2004 uma primeira pessoa foi condenada há 5 anos de prisão por homicídio através da Lei de Maggie. O motorista em questão estava privado de sono há mais de 24 horas quando matou por atropelamento um senhor de 50 anos.

O estado de Nova Jérsey é o único no mundo onde há uma jurisdição considerando criminosa a direção de veículos sob privação de sono. Outros estados americanos e a Austrália estão considerando a questão.

 

Dirigir Sonolento É Crime

Semelhante a maneira com que foi conduzido o problema da direção sob efeito de álcool deveria se conduzir a questão da privação de sono e direção segura. Nos últimos 25 anos nos EUA houve queda de 50% de acidentes automobilísticos relacionados ao uso de álcool. Reconhecendo-se que os riscos de se dirigir sonolento são similares aos da embriaguez, embalados na lei de Maggie, esse é um bom momento para enfatizarmos a necessidade de uma legislação que puna os indivíduos que insistam em arriscar suas vidas e a de terceiros, dirigindo em condições inseguras.

 

 

Comentários

Esse debate do importante periódico Americano abre nossa Campanha do Sono deste ano do Departamento Científico: Dirigir alerta!

Em nosso país a Lei Seca, implantada o ano passado, reduziu o número de acidentes de trânsito, especialmente aos finais de semana e pela madrugada. Embasados nessa Lei, e fundamentado nos conhecimentos que demonstram que os efeitos da privação de sono são tão danosos quanto os da embriaguez, no que concerne a condução segura de veículos, concordamos com a autora, que sugere punição aos indivíduos que insistirem em conduzirem seus veículos de forma irresponsável e criminosa!

 




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