Login: Senha:
Membros da Academia
Médicos, residentes, estudantes
Público Leigo
Boletim Neuro Atual
Arquivos de Neuro-Psiquiatria
Dementia & Neuropsychologia
Neurobiologia
Revista Neurociências
Classificados
Classificados profissionais



COMUNICADOS
Home > Comunicados

17/01/2013
Entrevista: Mobilização pela saúde

Mario Bracco, da Rede Nossa São Paulo, analisa os desafios do setor na capital
Atuando desde 2007, a Rede Nossa São Paulo (RNSP) é um movimento apartidário que reúne diversas organizações da sociedade civil, empresas, lideranças comunitárias e cidadãos para viabilizar uma cidade mais justa e sustentável em todos os seus eixos. Nesta entrevista, o coordenador do Grupo de Trabalho da Saúde, Mario Maia Bracco, comenta os principais problemas da área na capital, os desafios da nova administração municipal e explica o trabalho de mobilização da rede.
Pediatra com experiência em atenção primária, Bracco é médico pesquisador do Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch – M’Boi Mirim, assessor científico do programa Agita São Paulo e colaborador do Departamento de Pediatria da Unifesp.

A pequena oferta de leitos é assustadora em regiões distantes do centro. Em 28 distritos, não há nenhum disponível. Quais as medidas necessárias para diminuir este desequilíbrio?
Historicamente, a cidade construiu complexos no centro responsáveis por grande demanda de atendimento, como o Hospital das Clínicas e o Hospital São Paulo. O crescimento populacional e a expansão urbana hoje dificultam o acesso aos serviços de saúde e comprometem a eficiência do sistema em atender às necessidades da população, principalmente usuários do SUS. Por isso, são necessários mais hospitais e centros diagnósticos resolutivos na periferia, que obedeçam a uma lógica de regionalização para que o sistema possa funcionar como uma rede integrada. É preciso acompanhar o número de habitantes, aumentar a oferta de leitos e diminuir as distâncias para que as pessoas tenham maior acesso e melhor atendimento.

A Estratégia Saúde da Família (ESF), eficaz na cobertura de atenção básica na periferia, sofre para contratar e fixar profissionais. A que podemos atribuir este obstáculo?
Os médicos estão concentrados nas regiões centrais, fato explicável por dificuldades de mobilidade e transporte, segurança, remuneração e condições de trabalho, entre outros. Na ESF, mesmo com a oferta de salários melhores, as vagas não são totalmente preenchidas. Poucas equipes da ESF no Brasil têm um médico especialista em Medicina de Família e Comunidade, apesar de esforços de qualificação realizados pelo Ministério da Saúde e Secretarias Estaduais e Municipais, como a Universidade Aberta do SUS (UNASUS), por exemplo. Além disso, as escolas médicas no Brasil são voltadas para especialidades e não para a formação do médico generalista, o que diminui a ofe rta de profissionais com interesse em se desenvolver na área. A carreira no setor privado também é mais sedutora. Em recente estudo sobre demografia médica no Brasil, realizado pelo Cremesp, verifica-se maior ocupação de postos de trabalho médico no setor privado do que no público em todo o país. Este conflito deveria ser objeto de estudo da macropolítica de saúde, pois mais uma vez compromete o acesso das populações mais pobres.

Quais seriam as medidas necessárias para o aperfeiçoamento e expansão da ESF, que visivelmente hoje não atinge todo o seu potencial?
A expansão progressiva da ESF melhorou o acesso ao cuidado integral e contínuo, propiciando assim uma plataforma para a prevenção e o gerenciamento de doenças agudas e crÿnicas preveníveis e passíveis de monitoramento. No entanto, o sistema de saúde ainda não está organizado como uma rede regionalizada de serviços. Muitas internações hospitalares ocorrem por dificuldade de acesso a serviços especializados e/ou a medicamentos, por exemplo. Para o sistema tornar-se sustentável, é preciso investir na formação de quadros profissionais, tanto das equipes da ESF como de hospitais e ambulatórios de especialidades, com foco no planejamento epidemiológico e sociodemográfico. A ESF deve ser expandida em termos de cobertura territorial e qualificada para exercer mais efetivamente essas funções.

Há 119 unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMAs) na cidade. Em contrapartida, as AMAs Especialidades são apenas 17, o que gera filas e demora no atendimento. Que direção vislumbra para eliminar este gargalo?
Precisamos de ações coordenadas e integradas, reconhecendo que a saúde é um problema de difícil solução e que não há "bala de prata” no setor. Mais ambulatórios de especialidades ajudariam o sistema, desafogando gargalos de atendimento que geram grandes filas de espera por consultas com especialistas e/ou exames. No entanto, eles precisam estar integrados com a atenção primária para o monitoramento dos tratamentos, principalmente de doenças crÿnicas, por meio de comunicação efetiva que elimine ineficiências, desperdícios de insumos e de tempo de profissionais e, principalmente, de pacientes. A fragmentação do cuidado provoca desconfortos e riscos aos pacientes, com aumento de complicações e reinternações hospitalares, além de gerar prejuízos ao sistema de saúde.

Qual a importância de investir nos chamados determinantes sociais da saúde, como habitação, saneamento básico, alimentação e combate à poluição?
A saúde é interssetorial, permeada pela economia, infraestrutura urbana, mobilidade, educação, isto é, quase todos os setores da atividade humana repercutem sobre aos níveis de saúde de comunidades. Os profissionais da ESF, por exemplo, são treinados para observar potenciais parcerias nos territórios sob sua responsabilidade sanitária, que possam auxiliar na execução de ações de saúde, desde cessão de espaços para atividades de sensibilização e mobilização, como em mutirões contra a dengue, até participação em projetos conjuntos, como o compromisso de comerciantes de não vender bebidas alcoólicas a adolescentes. Há necessidade de diálogo constante entre essas áreas e dificilmente vemos isso na administração pública e na sociedade de uma forma geral. A Rede Nossa São Paulo é um instrumento de estímulo Í maior mobilização e participação da sociedade.

As Organizações Sociais, que já administram unidades responsáveis pela saúde de cerca de milhões de habitantes, foram tema central do debate eleitoral. Qual a sua visão a respeito?
Na campanha eleitoral, este tema teve um forte componente político-partidário. No entanto, não foi aprofundado o debate no seu aspecto técnico. A sociedade precisa de elementos concretos de avaliação da qualidade da assistência prestada à população, de acordo com os diferentes modelos de gestão. A ampla divulgação das metas e dos indicadores de acompanhamento, como realiza a Rede Nossa São Paulo, o suporte ao controle social pelo Conselho Municipal de Saúde, estimulando a democracia participativa e a transparência, trarão maiores contribuições ao debate.

Como resumiria os principais desafios da nova administração municipal?
O maior desafio é consolidar o SUS, atendendo aos princípios constitucionais da universalidade do acesso, integralidade do cuidado e equidade na definição de prioridades e correção de iniquidades. Além disso, trazer maior racionalidade e eficiência ao sistema por meio da integração dos diversos serviços e pontos de atendimento, inclusive com os serviços estaduais. Também trazer a saúde para a agenda de desenvolvimento da cidade. Haverá excelente oportunidade para isso no próximo ano com a discussão e aprovação do novo plano diretor, na Câmara Municipal. O prefeito eleito Fernando Haddad foi signatário da carta compromisso do Programa Cidades Sustentáveis, lançado pela Rede Nossa São Paulo, que propõe o desenvolvimento urbano planejado com metas e acompanhado por indicadores em 12 eixos temáticos. Na saúde, é p reciso diagnosticar onde estão sendo produzidas as doenças. Priorizar os locais de maior carência, aumentar e qualificar a porta de entrada para receber os pacientes e ter equipes bem treinadas para dar uma resposta adequada às necessidades da população.

Qual a contribuição da Rede Nossa São Paulo para a saúde municipal?
A Rede Nossa São Paulo propõe um acompanhamento propositivo do poder público municipal, isto é, além de cobrar das autoridades o cumprimento do plano de governo apresentado na campanha e escolhido pela população nas urnas, oferecemos um canal de comunicação com a sociedade interessada em participar do processo democrático, disponibilizando ferramentas, como o Observatório Cidadão, propostas dos grupos de trabalho, pesquisas e desenvolvimento de indicadores de bem-estar que auxiliem políticas públicas. Acreditamos em informação de qualidade para qualificar o debate. O GT Saúde da RNSP (www.nossasaopaulo.com.br) está aberto a quem tenha interesse em contribuir com a cidade.


Fonte: APM

 

Rua Vergueiro 1353 - sl 1404 - 14ºandar - Torre Norte Top Towers Office - São Paulo/SP - Brasil CEP: 04101-000 Tel.+55(11) 5084-9463/5083-3876
Copyright © Academia Brasileira de Neurologia | Política de privacidade e uso de informações