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25/10/2012
A importância da Relação Médico-Paciente

Quando nos reportarmos a um passado não muito distante, lembramos como era habitual a 
existência de uma relação muito forte entre o médico, o paciente e seus familiares. Aquele 
médico da família, que acompanhava todos os seus integrantes ao longo da vida, não existe 
mais. Ou restam pouquíssimos. E infelizmente, depois do avanço da tecnologia, alguns 
passaram a admitir que o computador e a ressonância magnética, por exemplo, desempenham 
papel mais importante do que a atuação do médico. Qual a necessidade de conversar com o 
paciente quando é possível colocá-lo dentro de uma máquina e enxergá-lo por dentro?  
Não podemos nos esquecer de que a ressonância magnética não é capaz de indicar, por 
exemplo, as condições sociais e culturais do doente. Não é capaz de diagnosticar tudo o que 
acontece com ele. Cito como exemplo casos de síndrome do pânico: o indivíduo geralmente 
reporta um quadro de doença instalada e profundo mal estar, mas os exames não indicam 
nenhuma anormalidade. Nesse caso, o bom diagnóstico é feito apenas pela anamnese e 
através da relação entre o médico e o paciente.  
A tecnologia avançada, a despeito dos seus benefícios, acabou colaborando para o 
esfriamento dessa importante interação. E por acreditar profundamente nisso, tenho 
pessoalmente procurado trazer à baila a discussão desse tema em congressos e campanhas no 
âmbito do associativismo e da academia. 
A busca pela valorização do envolvimento entre o médico e o paciente trouxe também para a 
superfície o debate sobre a importância do humanismo na prática médica. Acima de qualquer 
atitude, o médico precisa focar menos na doença, na tomografia, na ressonância magnética e 
mais no doente, que é a razão da sua existência profissional. Nesses tempos de grande avanço 
econÿmico e tecnológico, nada substitui o tratamento humanizado e nada é mais importante 
do que a Medicina à beira do leito.  
A relação médico-paciente é uma interação que envolve confiança e responsabilidade. 
Caracteriza-se pelos compromissos e deveres de ambos os atores, permeados pela sinceridade 
e pelo amor.  Sem essa interação verdadeira, não existe Medicina. Trata-se de uma relação 
humana que, como qualquer uma do gênero, não está livre das complicações. Muitas vezes o 
indivíduo que está doente já procurou diversos profissionais que, em inúmeros casos, sequer 
olharam em seu rosto. É uma das dificuldades que precisam ser enfrentadas no momento da 
abordagem inicial.  
A Medicina não é apenas ciência. É também arte. Frequentemente o paciente chega ao 
consultório do médico e não consegue dimensionar o quanto aquele momento é importante 
na sua vida. Sai do escritório correndo, muitas vezes esquece o que precisa dizer ao médico, 
chega nervoso porque precisa voltar ao trabalho. Isso é bastante comum, principalmente no 
Sistema Único de Saúde. Aí o problema se torna mais complicado ainda, porque cada consulta 
não passa de 15 minutos. Às vezes não há sequer cadeira para o doente sentar.  
Nossa obrigação, enquanto médicos, é estabelecer uma interação com o paciente, não 
importa sua classe, cor ou credo. Esse profissional precisa estar pronto para enfrentar as adversidades, quando o paciente contesta. E ele está exercendo seu direito. Também há 
situações em que o doente chega acompanhado de uma terceira pessoa que adquire papel de 
intermediária e, por conseguinte, interfere na relação médico-paciente. Ainda em outro 
momento, o paciente chega visivelmente aborrecido, com as mãos geladas, nervoso, porque já 
aguarda na sala de espera há algum tempo. Com tantas dificuldades, como o médico faz para 
criar um ambiente agradável e propício para receber o doente e interagir com ele? Sem esse 
contato, não é possível estabelecer um diálogo e desenvolver uma anamnese adequada. 
Precisamos nos lembrar de que 70% de todos os diagnósticos são advindos da anamnese.  
Qual seria, então, a melhor maneira para permitir a fluidez dessa relação médico-paciente? No 
meu consultório, uma das estratégias é buscar aproximação através de temas do cotidiano, 
como o futebol. Conversas sobre a profissão também ajudam a relaxar o doente. Após cerca 
de 15 minutos, ele está totalmente tranquilo, o que se percebe pela respiração mais lenta e 
mudança no semblante. Esse é o momento ideal para o início da anamnese. O que é 
necessário é desarmar o paciente quando ele se encontra agressivo, cansado, com medo ou 
simplesmente desacreditado por já ter procurado diversos profissionais que não souberam 
ouvi-lo e respeitá-lo. 
É tempo de recuperar nossas raízes, de resgatar o bom e velho médico e suas principais 
qualidades, sem, é claro, abrir mão de toda a modernidade a que temos direito. O resgate da 
humanização tão bem inserida naquele contexto de antigamente, deve pautar sempre a 
prática da Medicina, com principal objetivo de oferecer assistência digna e de qualidade à 
população. 
Para ser médico, é preciso gostar de gente. Saber que não existem doenças e sim, doentes. 
Exercer essa profissão é colocar em prática o amor  ao próximo.  O doente deve morrer de 
mãos dadas com o seu médico e este necessita de tranquilidade e ferramentas ideiais para um 
atendimento no qual possa oferecer o melhor do seu  conhecimento, toda a sua atenção e, 
principalmente, todo o seu respeito. Ele precisa de tempo suficiente para conhecer o paciente, 
descobrir suas queixas, averiguar seu passado, seus anseios e angústias, e fazer com que saia 
aliviado, com perspectiva de ter seu problema solucionado. Dar e receber assistência médica 
de qualidade e universal, mais do que um anseio, é um direito de todos.  

Antonio Carlos Lopes 
Diretor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp 
Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica 
Membro Titular da Academia de Medicina de São Paulo

Fonte: ACADEMIA PAULISTA DE MEDICINA

 

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